Poptalk: Black Mirror, Baleia Azul e 13 Reasons Why

cultura pop

Por Altieres Edemar Frei

Longe de almejar uma análise detalhada (afinal tem mensagens chegando no whatsapp e ninguém tem tempo para mais de uma página de leitura mesmo), me parece interessante traçar um paralelo entre o jogo da Baleia Azul, o nosso “hashtag-força-chape” do momento (durará tão pouco quanto?), o seriado 13 Reasons Why e uma outra pérola disponível para os assinantes Netflix: Black Mirror – no caso San Junipero, o quarto episódio da terceira temporada da série de ficção científica inglesa.

Na trama, logo ali em San Junipero, neste lugar “paralelo” (ops: spoilers), há uma bela história de amor e direito a decidir sobre o próprio corpo onde duas amantes convivem com uma série de simulacros, espectros e mentes ‘congeladas’ em uma espécie de realidade virtual. Claro, naquele campo ideal, não há velhos, não há frio, não há miséria. Nem dor há.

A pergunta posta é: se você pudesse escolher os sonhos que vai sonhar, que tipo de sonhos seriam possíveis? É o tal do ideal de eu dito por Freud escancarado. E tome carros conversíveis, sejam eles modelo jeep, sejam eles vermelhos a la Penélope Charmosa ou Telma & Louise. Tome estética clean e sons legais da cultura pop – Girlfriend in a Coma dos Smiths é uma boa pegadinha, não?

Mas aos que estão neste conto/canto San Junipero por tempos mais dilatados do que a própria vida, há uma espécie de esgotamento. Para driblar o tédio do gozo-brilhante, há o templo do gozo-extremo, chamado Quagmire. Espécie de torre-de-babel com toques de Mad Max e pitadas de UFC, é a sede e a sede de corpos expostos ao extremo do sexo e violência (ou aquilo que em uma visão platônica classificaríamos como bizarro). Para além dos juízos de valores ali impressos, leio Quagmire como uma espécie de clichê da dose extra pós-tolerância a algum tipo de substância. Ou, “quando isso que é o teu ideal não te dá mais tanto barato assim, salte para lá”.

O sintoma social expresso na mutilação e suicídio de adolescentes, que é um episódio da vida real sério e drástico, exige mais do que autopromoções de governantes que não são lá grande referência de cuidados com o próprio corpo (ou vida comum) ou mais do que debates apressados no café da manhã: “você viu, foram sete esta noite?” Aqui também vale o resgate do tal provérbio oriental: “quando o sábio aponta à lua, o tolo olha o dedo”.

Tal sintoma aponta para um tipo de desgaste de simbolizações outrora comercializadas pela cultura pop em um ritmo pré-internet. Supera, sem deixar de lado, as referências à clássicos da literatura como O Sofrimento do jovem Werther de Goethe ou até ao Apanhador no Campo de Centeio de J. D. Salinger. A novidade é a velocidade, não o ato. E nessa história toda, haja contas da Netflix e pacotes de internet vendido a peso-outro. Pelo menos temos ideia em quais ações investir: quem diria que a cultura pop ia ser reeditada dessa forma. Menino danado de plástico esse Capital!

Aponta para um declínio de perspectivas do comum – ou invenção possível de um tipo de comum (grupos em tempos de whatsapp) – em que escancara a privatização da vida, o narcisismo, a sociedade dos condomínios, o declínio da noção de Estado, o fracasso da noção de cidadania fagocitada pelo código de defesa do consumidor (tenho direitos porque pago meus impostos).

Nesta fronteira ou borda, o limite só pode ser mesmo o corpo e a vida. O poder de gerir (ou de-gerir-se/digerir-se) como último ato. Instantâneo. Comandos e códigos postos ali na palma da mão de um corpo-prótese-celular. Novamente, biopolíticas.

O antídoto-pedra filosofal? Boa sorte. Cada um com seu. Hoje somos 200 milhões de ‘precisa disso ao invés daquilo’ tal qual na Copa do Mundo, somos técnicos de futebol. Arrisco os meus, claro: mais simbolizações ao invés de ‘menos simbolizações’ – é o tal paradigma que o capitalismo usa para esgarçar algo que é potente: da cultura punk vendida nas lojas Renner às jornadas de julho trajadas de camisas da CBF. Só uma vida e um corpo recheados e nutridos de ética-pulsional pode lutar contra o vazio da vida expresso no próprio corpo.

Não era Goethe que ao morrer teria dito o imperativo “Mais luz!”?

Altieres Edemar Frei é psicólogo, professor, pesquisador e tem feito corres profissionais pelos lados de Curitiba. Autor de dissertação de mestrado “Modos e Modelos de Subjetivação no Metrô de SP”. Contato: altieres@usp.br

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Ao Infinito... e Além. popground@popground.com.br

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