Poptalk: a cultura pop pode mudar o mundo?

Cultura Pop

Justiceiro e Demolidor: muito mais do que uma briga de fantasiados, o conflito entre os personagens levanta uma série de questões sobre ética e justiça

Por Hércules Pereira

Volta e meia paro pra pensar sobre qual o papel da cultura pop na sociedade e até onde influenciamos ou somos influenciados por ela. Esse pensamento serviria para diversas áreas e linguagens, mas aqui vamos nos concentrar no cinema.

Num timing bizarro em que o clima político brasileiro nas ruas parece saído de algum futuro distópico, duas produções me chamaram a atenção nessa relação cultura pop x realidade.

  • A primeira delas foi Zootopia: sem entregar muito da película, o filme mostra o relacionamento de uma raposa e um coelho que precisam se ajudar para resolver uma série de crimes, numa sociedade em que animais de diversas espécies (e escalas) convivem pacificamente. Aqui o tema principal do filme é preconceito. Diferente dos tradicionais filmes da Pixar, que analisam de maneira esperta como nos comportamos como indivíduos (acredite em si mesmo sempre sendo martelado), em Zootopia a mensagem “não julgue um livro pela capa” é focada em como nos comportamos como sociedade.
  • A segunda produção é a estreia da 2ª temporada de Demolidor. Nesta, além de trazer o Matt Murdock, vigilante de Hell’sKitchen, temente a Deus mas descrente no sistema judiciário como solução para todos os problemas, temos um Justiceiro que depois da sua família ter sido assassinada acredita que a morte dos responsáveis é a única solução para vingar sua perda. A série traz para o debate algumas perguntas: “Num cenário em que a culpa é inevitável, temos o direito de ser o juiz e júri? É possível dar uma segunda chance para quem cometeu algo horrível? A morte é uma pena justa para alguém além do time do bandido bom é bandido morto?”

O que mais me chama atenção é que em ambos os casos não estamos falando de um produto para um público específico – ainda que tenhamos crianças e leitores de quadrinhos como público primário – são produtos que para gerar lucro precisam ser assistidos por uma quantidade gigantesca de pessoas.

Usar conceitos derivados da cultura pop como meio para traduzir um pensamento não é algo novo. Mas quando temos um blockbuster que precisa atingir todas as faixas de idade e tipos de público a coisa muda um pouco de figura, afinal, o que seria tão comum e interessante ao mesmo tempo?

O medo da bomba atômica fez os japoneses a criarem o Godzilla. Para enfrentar o terrorismo os americanos criaram Jack Bauer. Por medo da Aids, nos anos 80 o 007 de Timothy Dalton era “menos pegador”. Será que um dia seremos dominados pelas máquinas conectadas como em Exterminador do Futuro?

Todas essas questões tinham em comum o medo e a desconfiança da sociedade por aquilo que não se conhecia. Mas sempre numa escala maior, geralmente global.

Agora o que temos são filmes e séries que utilizam a cultura pop para nos fazem perceber o que está acontecendo a nossa volta numa escala menor, mirando no nosso relacionamento com o vizinho, amigo, motorista do carro ao lado. Quer ver?

  • Mad Max: Estrada da Fúria – o filme de ação mais casca grossa de 2015 tinha o feminismo como espinha dorsal;
  • Daqui a pouco teremos Batman vs Superman discutindo consequências dos atos como vigilantismo e a esperança das pessoas naqueles que prometem a cura como um falso Deus;
  • Capitão América: Guerra Civil falando sobre liberdade do indivíduo X controle do Estado.

Com tanto material assim, nem precisa apelar pra filme cabeça.

O grande ponto é que ao invés de perguntar “Entendeu ou quer que desenhe?”, colocaram um monte de gente fantasiada em filmes bem coloridos. Será que desse jeito a gente aprende alguma coisa?

 

Hércules Pereira é um publicitário viciado em cinema sul-coreano, mas na verdade queria morar em algum filme do Cameron Crowe.

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Author: Popground

Ao Infinito... e Além. popground@popground.com.br

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