MinasNerds: Machismo não é piada

O game FIFA 16, que vai oferecer aos jogadores a opção de jogar com times femininos.

O game FIFA 16, que vai oferecer aos jogadores a opção de jogar com times femininos.

Oi pessoal. Uma vez por semana vou estar aqui no Popground (minha segunda casa) representando o coletivo MinasNerds, para falar de assuntos referentes à cultura pop sob um outro prisma.

Como não poderia deixar de ser, o assunto da vez é sobre o anúncio de que a nova versão do game de futebol FIFA da Eletronic Arts vai contar com a opção de times de futebol feminino, o que deu origem a esta nota claramente paródica e RIDÍCULA, que foi amplamente divulgada nas mídias sociais como verdadeira.

Pior, foi divulgada por muitos nerds e os caras nem para se dar conta que as entrevistadas, a saber: “Florinda Meza” e “Maria Antonieta de Las Nieves”, são na verdade, os nomes da Dona Florinda e Chiquinha, do seriado Chaves.

“Ah, Gabi, mas foi só uma brincadeira!” – pois é, aí chegamos ao cerne da questão e ao viés que eu gostaria de dar a este artigo.

A nota ecoa frases de supostas feministas radicais que seriam contrárias ao jogo, através de um argumento pra lá de confuso onde dizem que “mudariam todos os controles do jogo porque não aceitariam juízes e bandeirinhas do sexo masculino, pois não seriam controladas por homenzzzzz” Sério mesmo, gente? Dona Florinda e Chiquinha, hackeando comandos de videogame? Poupem-me, por favor.

E o povo compartilhando loucamente uma barbaridade dessas, disseminando impressões, preconceitos e tanto pior, informações falsas. Reafirmando a falsa concepção de que toda feminista é radical, sem noção, generalizando todo um grupo magnificamente diverso (que sim, tem sua ala radical) e pra finalizar: atentando contra a nossa inteligência.

Moral da história: Muito ajuda quem não atrapalha: CHEQUEM as notícias. Apurem. E no mais, aprendam, de uma vez por todas: machismo. NÃO É brincadeira. Se for preconceituoso, separatista, se for machucar, denegrir, se figura nas estatísticas criminais como A MAIOR CAUSA de feminicídios no MUNDO, na boa, não é piada. Beleza?

E obviamente, outro grande assunto que ferveu no grupo (e em nosso sangue também) foi o papelão e a cagada homérica que o apresentador Rafael Cortez , do programa CQC fez com a oportunidade de ouro que teve ao entrevistar as atrizes da série do Netflix, Orange is The New Black: Uzo Aduba, Natasha Lyonne e Samira Wiley, que interpretam as personagens Suzanne “Crazy Eyes” Warren, Nicky Nichols e Poussey Washington.

Se você não conhece a série, ela é sobre a rotina e a história de vida de detentas em um presídio feminino nos EUA. É doce, linda, engraçada e pesadíssima ao mesmo tempo. Aborda muitas questões cruciais, tanto dentro do universo feminino quanto nas esferas de direitos humanos, sociedade, religião e relacionamentos em geral.

Eu confesso que senti MUITA vergonha do que vi no vídeo. Vergonha pelas meninas, vergonha pelo apresentador, vergonha pelo programa, vergonha como profissional da informação e de TV que sou. Vergonha alheia define.

Eu tenho idéia da quantidade de pessoas envolvidas na produção daquela entrevista. Eu sei quantos profissionais aprovaram aquela porcaria para ir ao ar. Foram, pelo menos, 10 pessoas que ENDOSSARAM aquela boçalidade, deram seu crivo TORTO e carimbaram aprovado para que um vídeo, cheio de perguntas RASAS, MISÓGINAS, PRECONCEITUOSAS, malfeitas e DESINTERESSANTES fosse ao ar, em rede nacional.

E aí, voltamos ao assunto do artigo. Sério mesmo que tem gente que ri de coisas desse tipo? Que tipo de humor é esse gente? Não estou aqui, querendo discutir o politicamente correto, eu sou total politicamente incorreta, mas fazer piada com um comportamento que fomenta atitudes violentas contra QUALQUER SER HUMANO e incita ao crime – NÃO-É- PIADA.

Sabe, não estou aqui questionando se merecemos o inferno ou não porque rimos da piada do ceguinho, do mudinho, do cara sem perna e sem braço que confundiram com uma tartaruga na praia (cara, eu morro de rir com essa). Rir das próprias desgraças, de nossos defeitos, falta de jeito, traquejo social ou qualquer outra falha comum e passível a QUALQUER SER HUMANO é perfeitamente normal.

Mas fazer piada, ou atribuir como sendo falha ou imperfeição, características naturais de uma minoria, que, novamente, vai ofender, machucar, passar idéias errôneas e pré-concebidas sobre algo que você NÃO CONHECE, não é humor. Humor é inteligente. E isso é sinal crasso de burrice.

Senti vergonha de ser brasileira ali. Tive vontade de escrever uma carta à produção da série pedindo perdão.

É nessas horas que as pessoas precisam tomar uma posição. Porque não é aceitável aturar esse machismo disfarçado de humor, essas piadinhas, esse estereótipo de que feminista é mal-comida e não raspa debaixo do braço.

Simples assim.

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Gabi Franco

Author: Gabi Franco

Gabi shot first. https://www.linkedin.com/in/gabrielafranco

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