Entrevista – Gabi Franco (MinasNerds)

Membro do Popground e colaboradora das revistas Mundo dos Super-Heróis e Mundo Nerd, a jornalista e produtora Gabi Franco também é a idealizadora do coletivo virtual MinasNerds, que acaba de anunciar uma série de atividades na edição desse ano da Fest Comix, tradicional evento de quadrinhos realizado anualmente em São Paulo pela Comix Book Shop. Fizemos algumas perguntas para a Gabi para entender um pouco mais sobre o MinasNerds e quais serão os próximos passos do coletivo.

MinasNerds

Gabriela Franco, a idealizadora do coletivo MinasNerds.

O MinasNerds existe há quanto tempo e como surgiu a ideia de criar um espaço virtual voltado para mulheres que curtem cultura pop?

O MinasNerds existe há exatos 5 meses. Ele surgiu da clássica história de machismo e misoginia nas redes sociais. Eu, como colaboradora de vários sites e revistas do gênero participava de muitos fóruns e grupos sobre o assunto. Em todos eles, sem exceção, fui atacada por ser mulher, fui indagada sobre meu “conhecimento na área”, fui questionada por meu comportamento (ativo e não passivo, considerada “briguenta” porque questionava certos padrões nos grupos) sofri cyberbullying e cantadas BEM grosseiras e até ameaças – cansei de tudo isso e resolvi criar um grupo só de mulheres que tivessem os mesmos interesses que os meus, a saber: Cultura pop/nerd, HQs, séries, cinema, música, mangás, RPG, games…e por concentrar muitas mulheres, porque não: feminismo, o papel da mulher no mundo, na sociedade, como mãe, cidadã, indivíduo. O grupo acabou virando uma grande comunidade de mulheres e dali saem discussões onde uma acaba ajudando a outra em todos os assuntos, de relacionamentos à culinária, a moda, maquiagem, sociologia, política, física quântica, tecnologia, história, sexo, tudo. Falamos de tudo, mas o GRANDE FOCO é cultura pop. Adoramos o assunto e é, com certeza, 97% dos posts do grupo.

 

O coletivo vai participar de forma bastante efetiva na próxima Fest Comix. Você poderia falar um pouco sobre o que vocês estão preparando para o público?

Fomos convidadas pelo Jorge no começo do ano e desde então estamos nos preparando bastante, com frio na barriga, mas com muito amor, paixão pelo assunto, cuidado e trabalho em equipe. Todos os temas escolhidos foram votados e compartilhados na comunidade. Portanto, eles são totalmente voltados às necessidades reais das mulheres, do que elas pensam ser passível de discussão nos dias de hoje. Nossas mesas estão bem caprichadas com convidados especiais, teremos uma mesa para discutir Mulheres nas HQs com presença de quadrinhistas como Germana Viana, Lu Caffagi, Adriana Melo, teremos uma mesa sobre cyberbullying com a participação de várias jornalistas que sofreram com isso (Ana Paula Freitas, do Brasil Post é presença confirmada) e teremos uma Defensora Pública responsável por analisar crimes digitais que responderá as dúvidas do público sobre o assunto. Teremos mesa sobre Mulheres e Games (com participação da Flavia Gasi), Mulheres e RPG (com participação das Minas de Moria) Feminismo não é bicho-papão (explicando pra todo mundo o que é e tirando essa pecha de que feminismo é ruim) e uma mesa que é a do meu coração e se chama Y: O Último Homem (uma menção carinhosa à HQ homônima) composta só de homens (com moderação de mulheres) que vão discutir essa “adaptação” masculina à invasão e empoderamento da mulherada no meio nerd. Dessa mesa vão participar JM Trevisan (Jambô Editora) Thiago Cardim do Judão, Daniel Esteves (São Paulo dos Mortos) Freddy Pavão (Dr Who Brasil). Teremos também uma exposição com 20 trabalhos de ilustradoras brasileiras que estão quebrando tudo no mercado e muitas outras surpresas. Se eu falar tudo, vai perder a graça :)

 

Não vamos fugir do tema: machismo nos meios nerds. Esse é um assunto que infelizmente ainda aparece de forma constante, seja em eventos ou comunidades online. Você poderia falar um pouco a respeito?

Falei um pouco a respeito lá em cima na primeira pergunta. Olha, o assunto é cabeludo e difícil. Existem MUITOS casos horrendos de cyberbullying, machismo e misoginia no meio nerd, no mundo inteiro, que levam até ao suicídio. Não à toa já foram matérias de revistas femininas como a Marie Claire, por exemplo. No Brasil não é diferente. Vide o caso da Ana Freitas do Brasil Post que até proteção policial tem que ter. Chegou a ser ameaçada fisicamente, a receber provocações em casa, um pesadelo. Teve a vida transformada porque peitou meia-dúzia de moleques nerds num chan de games.

O caso do bullying contra cosplayers mulheres em eventos, por exemplo, é outra mancha absurda que o machismo causa. Meninas que mostram um pouco mais de carne, dependendo da fantasia e personagem que escolhem para cosplay, são chamadas de “cosputa” , são alvo de perseguições, cantadas nojentas, ignorância e grosseria – mas homem pode ir de cosplay seminu, ninguém vai xingá-lo por isso, certo? – Essas coisas que, para quem não é alvo delas, parecem pequenas e bobas. Besteira. Mas que ao invés de promoverem a participação e integração de quem tem o mesmo hobby, segregam, machucam, quebram. Ouvir essas “besteiras” e “brincadeiras” a sua vida INTEIRA, uma hora cansa. É isso que está acontecendo com a mulherada. Estamos cansadas disso. Chegou a hora do basta.

 

Podemos esperar por novos eventos das MinasNerds depois da Fest Comix?

Podem e devem! Vai ter muita coisa boa por aí. Estamos trabalhando um esquema de MinasNerds em “células” ou seja, núcleos do MinasNerds em vários locais do país, para sair do eixo RJ-SP que é onde acontece a maioria dos eventos. Meia dúzia de mulheres nerds que, como nós, se juntam e criam encontros, comunidades, promovem debates em suas cidades e estados. Fora outras coisas que estamos bolando…aquilo que fazemos todos os dias, Pinky…sabe como é.

 

Gabi, a gente gostaria de encerrar essa entrevista com uma mensagem sua para nossos leitores e leitoras.

Bem, antes de mais nada: Feminismo não é competição. Feminismo não é o contrário de machismo. Existe radicalismo em todos os movimentos sociais, mas escolhemos não seguir por esse caminho. Feminismo é basicamente lutar por direitos sócio-econômicos e culturais IGUAIS para homens e mulheres. Não somos iguais física e psicologicamente. Mas o somos como indivíduos, metafísica, filosófica e estatisticamente falando. Queremos vocês como parceiros, não como párias. Em segundo lugar: Assistam Mad Max. É basicamente aquilo. Em terceiro lugar: venham nos prestigiar na Fest Comix! Esperamos vocês de 17 a 19 de julho no Centro de Exposições Imigrantes! Vamos adorar!

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Author: André Morelli

Vida louca e próspera. morelli@popground.com.br

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