Entrevista – Daniel Esteves (São Paulo dos Mortos)

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Depois de uma bem sucedida campanha de financiamento coletivo via Catarse, o roteirista e editor independente Daniel Esteves está fechando os últimos detalhes de São Paulo dos Mortos vol. 3.

Como o nome já denuncia, a publicação é a terceira de uma série em quadrinhos onde a temática dos mortos-vivos se encontra com a realidade paulistana, em histórias curtas com roteiros de Esteves e arte de diversos artistas convidados.

O lançamento está previsto para a próxima CCXP (Comic Con Experience), que acontece de 01 a 04 de dezembro no São Paulo Expo. E para saber um pouco mais a respeito do lançamento, leia a entrevista que o Popground fez com Esteves.

 

Esse é o seu terceiro álbum da série São Paulo dos Mortos. Você esperava chegar tão longe? E por que zumbis exercem tanto interesse no público?
Quando produzi o primeiro volume não passava pela minha cabeça fazer outros. Porém, desde aquele momento eu tinha consciência de que ainda teria muitas histórias para contar. São muitos lugares a visitar, muitos personagens a explorar, muitas situações. Até gostaria de produzir com maior frequência, mas o mercado não nos permite, o que pra mim não é surpresa, pois sei como as coisas funcionam.
Zumbis permitem certas alegorias dentro do seu universo pós-apocalíptico, na verdade não só zumbis, mas quaisquer histórias dentro desses cenários de destruição. E isso faz a cabeça dos leitores. Daí você pode ir por muitos caminhos, desde histórias mais sérias a pirações e sátiras. Cabe muita coisa dentro desse pacote.

 

Sobre a terceira edição: é difícil não se repetir depois de tantas histórias com o mesmo tema?
Acho que a preocupação nem é tanto em “não se repetir”. Mas em trazer histórias com conteúdo relevante ao leitor. Pode ser que nalgum momento alguma fórmula narrativa, ou tipo de trama se repita. Mas isso não me incomoda. Inclusive uma coisa que acabou surgindo no segundo volume e que se intensificou agora, foi a vontade de produzir personagens regulares dentro desse universo. Primeiro com o “Mortoboy”, que volta para a terceira edição, que também contará com “O Doutor” e uma outra personagem feminina que pretendo contar mais histórias.

 

Quais foram as influências na criação da série? Existe algum material sobre zumbis que você recomenda?
Os quadrinhos de Walking Dead são muito bons até onde li, mas confesso que deixei de ler há algum tempo, qualquer dia retorno. Quando fui desenvolver a série assisti diversos filmes, desde os clássicos do Romero, até alguns mais novos e outros bizarros pra caralho. Os bizarros agradam a alguns, mas não fazem tanto a minha cabeça, a não ser que sejam sátiras. Dos mais novos o espanhol Rec (e sua versão dos Estados Unidos: Quarentena) tem um estilo que me agrada bastante, pois cria uma atmosfera que realmente me agonia, coisa rara em filmes de terror. Outras HQs que acho ótimas: O Guia de Sobrevivência a Zumbis: Ataques Registrados, escrita por Max Brooks (autor do Guerra Mundial Z, cuja adaptação para o cinema é bem interessante) e desenhada pelo Ibraim Roberson (um dos artistas envolvidos na criação de São Paulo dos Mortos). Aquela HQ do Monstro do Pântano onde aparecem zumbis (em Gótico Americano) e variadas histórias do Dylan Dog onde esse tipo de personagem aparece, são boas lembranças de leituras antigas também.
Porém, não diria que alguma dessas histórias seja influência direta na minha forma de pensar os zumbis. Talvez o Walking Dead só tenha sido um gatilho pra me chamar a atenção pelo tema, pois não era algo que eu lia ou via com frequência e filmes de zumbis haviam ficado na minha infância.

 

Você poderia falar um pouco sobre as questões políticas e sociais abordadas em São Paulo dos Mortos?
São diversos temas que aparecem diretamente, ou tangenciam as HQs. Já falamos da violência da Polícia Militar e da atuação do Governador de São Paulo com relação a Reintegração de Posse no caso Pinheirinho em São José dos Campos (um caso emblemático que diz muito a respeito da questão da posse da terra em nosso Estado). Tentamos tratar a questão do usuário de crack, num sentido de humanizá-lo, ao invés de transformá-lo em monstro, em zumbi, como é o discurso vigente. De alguma forma tratamos do sentimento de posse doentio por parte de homens com relação a mulheres, numa história de amor brega zumbi. De pano de fundo de uma HQ brincamos com a ideia de um zumbi vegetariano. Falamos de empresários inescrupulosos e da questão da falta de água em São Paulo. Trataremos agora do Mercado da Fé e dos grandes Templos Religiosos de São Paulo e outros temas que poderão ser conferidos nesse terceiro volume. Enfim, são muitas coisas, seja de forma mais direta e explícita, ou como sub texto das histórias.

 

Um dos seus materiais mais conhecidos do público é a série Nanquim Descartável. Você pode adiantar alguma novidade para os leitores?
A vantagem do entrevistador conhecer bem seu trabalho é que ele resgata seu passado. :)
Mas para o leitor que não conhece as personagens: Nanquim Descartável foi uma série que produzi entre 2007 e 2012, com cerca de 250 páginas publicadas em parceria com diversos artistas, entre eles: Wanderson de Souza, Wagner de Souza, Alex Rodrigues (esses três os responsáveis pelo visual das personagens), Mario Cau, Júlio Brilha, Mario César, Fred Hildebrand, entre outros. Ambientada em São Paulo, falava do cotidiano de três personagens que produziam quadrinhos, as garotas: Ju e Sandra e o amigo delas, o Tuba. Parei de produzi-la por me envolver noutros projetos, mas todo ano eu digo que vou retornar a série, o que ainda não aconteceu. Uma das ideias antigas para uma próxima edição, seria uma totalmente desenhada por mulheres, que nos últimos anos ganharam muito espaço dentro dos quadrinhos. A grande novidade é a possibilidade da produção de um episódio piloto para série de TV, conseguida através de uma parceria com uma produtora e da inscrição num edital federal. Passamos no edital, mas a produção ainda não começou. Acredito que quando começar e eu mergulhar novamente no universo das personagens, acabo voltando a produzir algo em quadrinhos. Vamos ver!

Links

Zapata: selo de HQs independentes de Daniel Esteves
www.zapataedicoes.com.br

Nanquim Descartável: toda a série pode ler lida de graça no site Petisco.
www.petisco.org/nanquim

HQ em Foco: a escola de quadrinhos mantida por Daniel Esteves.
www.hqemfoco.com.br

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Author: André Morelli

Vida louca e próspera. morelli@popground.com.br

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