Resenha: T2 Trainspotting

T2 Trainspotting

Por Toni Santos

O mundo muda. As pessoas, nem sempre. Esse fato permeia todas as cenas de T2 Trainspotting, que chega nesse final de semana aos cinemas.

A trama começa quando Mark Renton (Ewan McGregor), após sofrer um ataque cardíaco em uma esteira de academia, abandona sua vida comum de classe média e um matrimônio fracassado em Amsterdã. Ele retorna à Escócia, onde reencontra os três amigos que sacaneou ao final do primeiro filme: Spud (Ewen Bremner), que ainda luta contra o vício em heroína e demonstra fortes tendências suicidas; Sickboy (Jonny Lee Miller), que herdou o pub de sua tia e sustenta seu forte vício em cocaína com esquemas de extorsão e cafetinagem ao lado de sua “namorada” Veronika (Anjela Nedyalkova); e Begbie (Logan Gillies), que consegue fugir da prisão onde esteve nos últimos 20 anos.

Se o filme original do diretor Danny Boyle, lançado em 1996, mostrava as consequências do buraco negro social que era o Reino Unido do início da década de 90, através da vida caótica dos personagens, a continuação tenta mostrar como essa mesma geração, após duas décadas de vã esperança, chegou à meia-idade igualmente sem objetivo ou esperança: presos entre um progressismo que não os inclui e um saudosismo preconceituoso que não os interessa.

Não importa se alguém “escolheu a vida” – fazendo referência ao poderoso monólogo do filme original – de estabilidade, pagar impostos, TV a cabo e tédio matrimonial ou se permaneceu à margem da lei – todos terminam no mesmo lugar escuro.

Infelizmente, T2 Trainspotting apenas conduz essa conversa de forma inconstante, se mostrando incapaz de expressar a mesma honestidade crua e agressiva do original. Resta aos personagens a glorificação do passado. O próprio filme parece mergulhar numa jornada nostálgica metalinguística, chafurdando em detalhes do original, explicando didática e milimetricamente o que era implícito, repetindo e esmiuçando cenas como um velho que não tem perspectivas, apenas memórias.

O aprisionamento à nostalgia que embala os personagens também embala a narrativa e o diretor, que se mostra tão apaixonado pelo filme original que acaba se atrapalhando em mostrar algo novo, insinuando a análise do presente sem concretizá-la totalmente. A trama central, onde Renton e Sickboy tentam transformar o pub em um cabaré, serve apenas para emoldurar essa jornada nostálgica que pouco conclui, só relembra.

No elenco, o destaque vai para Bremner, que brilha como um Spud velho, ainda mais digno de pena, mas que descobre novos e surpreendentes talentos ao longo do filme. Sick Boy convence como uma versão mais cautelosa, mais cínica e ao mesmo tempo mais ingênua do original. Já Begbie e Renton sofrem transformações que os empobrecem: o primeiro deixa de ser o criminoso caricato e impulsivo, que ampliava sua fama de violento ao atacar apenas pessoas mais fracas sempre de supresa, para se tornar uma reunião de clichês Hollywoodianos sobre criminosos velhos. E o segundo está tão perdido em sua visão de mundo – uma necessidade para explicar o retorno improvável ao lar de seus amigos traídos – que acaba seguindo a trama sem questionar, quase como um observador, sem a mesma verve caótica do primeiro filme.

Apesar de uma realização competente e boas atuações, um roteiro esparso torna T2 Trainspotting em uma experiência marcante apenas para quem reverencia profundamente o filme original.

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Author: Popground

Ao Infinito... e Além. popground@popground.com.br

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