Resenha – Cobain: Montage of Heck

Montage of Heck

Cheguei em casa depois de um dia exaustivo e estressante de trabalho. Cabeça explodindo e a mil. Got 99 problems, mas pensar neles quando saio do trampo não é um deles.

Cuidei de minha filhota (prioridades, sempre) a coloquei para dormir… Tomei meu sagrado e revigorante banho, engoli o resto de alguma coisa que estava na geladeira, e como de praxe, para colocar o cérebro de molho e viajar para um lugar mais aprazível (aka: longe da realidade), acessei o PopcornTime para assistir Penny Dreadful, minha nova obsessão.

Qual não foi minha surpresa e euforia quando vi que o documentário Cobain: Montage of Heck (que foi exibido via HBO nos EUA no último 4 de maio) já estava lá, disponível. Cliquei SIM, na hora. Eu amo Nirvana. Amava Kurt. Fiquei animadíssima.

Bem, foi uma péssima idéia. Não pelo documentário, é óbvio que é muito bom, aliás, já dizia Silvio Santos. Mas pelo fato de que, se minha intenção era relaxar e ver algo leve, enfim, o horror… que burra, dêem zero pra mim.

Well, Nirvana.

Se você, como eu, nasceu no planeta Terra e está chegando aos 40, com certeza passou pelo tsunami do GRUNGE nos anos 90. Revolta, uma espécie de punk melancólico, letras incríveis, doloridas, poéticas e politizadas. Muita camisa xadrez, muito All Star detonado e cabelo ensebado. O som e a fúria, a quintessência da adolescência. Tenho certeza de que consegue completar a letra: “I’m so happy, cause today I found my friends, they’re in my…” – Conseguiu? Pois é. Nirvana. Essa mesmo. Essa banda foi uma das que mudou MUITA coisa no cenário do rock. Mas isso fica para outro artigo.

Cobain: Montage of Heck (algo como monte de merda, amontoado de coisas), dirigido por Bret Morgen (de O Show Não pode Parar – 2002 – doc sobre o controverso produtor da Paramount, Robert Evans). O documentário sobre Kurt Cobain, vocalista da banda supracitada, é um soco no estômago da família brasileira. De qualquer família, aliás, em qualquer lugar do mundo. Assim como foi a existência e impacto do Nirvana, no mundo da cultura pop.

Assistir Montage of Heck é conhecer Cobain. E conhecer Cobain é uma coisa complicadinha, mermão. Pode parecer o sonho óbvio de todo fã da banda. Mas o bagulho é TENSO, te garanto. Kurt é muito melhor ali, na foto, bonitão e rebelde.

De perto, ninguém é tão bonito, normal e cool assim.

Assistir a Montage of Heck é mergulhar na alma e mente do líder do Nirvana, vivenciar seus medos, se deparar com seus segredos, sofrer com seus conflitos, odiá-lo por seus defeitos, compreendê-lo por suas fragilidades e admirá-lo por sua genialidade e talento.

O documentário mostra basicamente a vida inteira de Kurt Donald Cobain, filho da garçonete Wendy e do mecânico Don Cobain, desde seu nascimento em 20 de fevereiro na gélida e plácida Aberdeen, em Washington, EUA, até sua morte prematura em 5 de abril de 1994, em Seattle. Tem como recheio todo esse “amontoado de coisas” que foi sua vida, desde o sucesso surreal do Nirvana, ao relacionamento com Courtney Love, passando pela luta contra a depressão e o vício em drogas e o nascimento de sua filha, Frances Bean. É só isso. E caraca, é TUDO isso. Que vida, amiguinhos.

Bem, o que dizer? A psicanálise já prova que nossas maiores lições e nossos maiores traumas têm origem em nossos pais. Isso resume a nossa história, que cada um fale por si. E não foi diferente com Kurt. Por mais que houvesse boas intenções. Na maioria das vezes, elas sempre existem. Mas nossa cabecinha é uma Caixa de Pandora, uma Configuração do Lamento (não sabe o que é? Shame on you!) e, sabe se lá porque diabos, sinapses e combinações químicas malfeitas, muitas vezes a programação de nossa vida é totalmente alterada. E ninguém pode ser culpado e julgado por isso.

Segundo o documentário, o pequeno Kurt, ainda em idade pré-escolar, já tinha sido diagnosticado com Distúrbio de Déficit de Atenção e Hiperatividade. (TDAH).

Hoje em dia, o distúrbio é bem conhecido e até banalizado, já que é constantemente usado por médicos picaretas como desculpa para dopar crianças que apresentam o terrível e abominável comportamento de…crianças. Mas, enfim, nos primórdios dos anos 80 e na casa dos Cobain, o fato passou batido e baby Kurt cresceu literalmente quebrando tudo e causando problemas.

A separação dos pais, o péssimo relacionamento entre ambos e a entrada da madrasta de Kurt na equação completou a tragédia, já anunciada.

Cobain cresceu um adolescente semi-abandonado, que sofria (e também exercia) bullying na escola, era ridicularizado pela família, pelas garotas (Acreditam? Lindo daquele jeito!), foi diagnosticado como bipolar (Lithium foi feita quando ele recebeu o diagnóstico e precisou tomar remédios com a substância) e sofria dores terríveis no estômago, fruto de uma doença não descoberta. No final das contas, encontrou nas drogas e na música o refúgio e escape para toda essa tempestade de m@#$% que assolava sua vida miserável.

Quem pode culpá-lo? Eu não.

E ele era talentosíssimo. E era culto e politizado. Era contestador. Lia muito, sobre tudo, ouvia de tudo, sempre buscando referências. Desenhava também. Desde criança. Aliás, chegou a pensar que seria desenhista, não músico. Muitas capas e contracapas de vários álbums do Nirvana como Incesticide, são obras dele.

Um grande recurso visual de Montage of Heck é justamente transformar seus desenhos em animações surreais, tornando a experiência de mergulhar na angústia do vocalista ainda mais perturbadora. Grande parte da história é contada em forma de animação que inclusive vai virar uma HQ. Uma decisão acertadíssima do diretor que, com isso, manteve a linearidade da narrativa enriquecendo, em muito, o material.

Do negrume abissal da adolescência para os píncaros da glória com o Nirvana, passando por toda cena underground de Seattle e o relacionamento conturbado e regado a drogas com a então vocalista do Hole (já famosa na época entre as Riot Grrrls) Courtney Love, abordando seu método de composição, suas inspirações, história de grandes entrevistas e canções, (quem não se lembra da manchete bombástica da Rolling Stone americana na apresentação da banda? – Apertem seus cintos e rezem – O Nirvana está em rota de colisão com a Terra) está tudo ali, em vídeos caseiros e oficiais. Tudo dolorosamente escancarado, causando um misto de dó e saudade.

Aliás, por falar em escancarar, a mãe de Cobain, seu pai, sua madrasta, irmã, sua primeira namorada (para quem ele fez About a Girl), Krist Novoselic e Love também metem a língua nos dentes e contam tudo. Falta alguém aí certo? Sim. Dave Grohl, ex-baterista da banda e atual líder do Foo Fighters não participa do documentário.

Muito se falou sobre isso. Afinal, Dave foi peça–chave na vida de Kurt e do Nirvana. Os boatos dizem que Dave não concordou com o lançamento de Montage of Heck, dizendo que iria difamar ainda mais a memória do amigo, que ele não queria ser pintado como agente do caos nessa história (Dave era totalmente CONTRA o relacionamento de Kurt e Love, já que isso comprometia a banda e a vida do colega, e brigou MUITO na justiça por direitos autorais das canções com a viúva), entre muitos outros rumores.

Segundo o diretor, Bret Morgen, na verdade foi apenas um problema de “incompatibilidade de agendas”. Grohl foi contatado no começo das gravações e teria concordado em participar, mas como estava em turnê com o FF, nunca teve tempo de gravar, estando livre só após a finalização do documentário.

Papai Noel e a Fada do Dente, inclusive, confirmam o fato.

Do ponto de vista técnico, o trabalho de edição é primoroso. Como dito acima, ritmo videoclíptico, sequência de vídeos caseiros e animações, tudo muito sujo, gráfico e saturado. Tudo muito GRUNGE. A trilha sonora, então, nem se fala. De cara, logo na abertura você já é pego de assalto por uma sequência de fotos que acompanham a batida doentia de Territorial Pissings (em minha opinião, a melhor música do Nirvana). É maravilhoso, faz o coração acelerar de emoção e te prepara para a porrada que vem a seguir.

Fazendo um grande resumo de tudo, a história de Kurt é a história de todo adolescente perdido. É a história do seu vizinho, do seu amigo problema. É parte da sua história quando adolescente. Todos nós fomos um pouco Kurt Cobain. Atire a primeira cassete do Nirvana quem não se sentiu sozinho, quem não quis sumir, quem não teve amigos, quem se sentiu o cocô do cavalo do bandido. É a história de todo adolescente que precisa ser amado, ouvido e cuidado.

Meio-menino, meio-homem. Nenhum dos dois por inteiro.

Sentir tudo isso com agravantes de problemas mentais, não ter apoio da família e amigos, e depois se ver devassado pela fama, sem conseguir entender muito como tudo se deu até ali, deve ser barra, cara.

Antes eu tivesse usado toda a minha raiva adolescente para criar uma banda como o Nirvana. Fiz no máximo uma meia dúzia de tatuagens, não prossegui meus estudos em música e escrevi diários raivosos. Mas eu não era tão genial quanto Kurt nesse sentido. E é por isso, por sua genialidade, sagacidade, talento que ele deve ser lembrado. Lembrem-se de Kurt e assistam Montage of Heck.

“Se o meu sorriso mostrasse o fundo da minha alma, muitas pessoas, ao me verem sorrir, chorariam comigo” – Kurt Cobain.

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Gabi Franco

Author: Gabi Franco

Gabi shot first. https://www.linkedin.com/in/gabrielafranco

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