Resenha: Blade Runner 2049

Blade Runner 2049

Comprovando a máxima de que nada é sagrado, Hollywood nos apresenta Blade Runner 2049, uma improvável sequência de um dos filmes mais cultuados de todos os tempos. Mas a iniciativa era realmente necessária?

Na trama que se passa 30 anos depois dos acontecimentos mostrados no primeiro Blade Runner, temos um mundo onde uma nova leva de replicantes está integrada a sociedade humana, graças a implantes de memória capazes de criar a estabilidade emocional que faltava aos modelos antigos. Nesse cenário vive K (Ryan Gosling), um replicante que trabalha para a polícia de Los Angeles como um Blade Runner, caçando e matando replicantes rebeldes.

Numa investigação de rotina, K descobre numa fazenda de proteínas os restos mortais de uma replicante que teve como causa da morte complicações relativas a um parto. Essa informação contraria todo o conhecimento de que replicantes são estéreis. Temendo que o caso se torne público e cause uma convulsão social, a tenente Joshi (Robin Wright) ordena a K que ele destrua todas as provas, localize e elimine o filho da replicante.

Enquanto continua as investigações, K entra na mira de Niander Wallace (Jared Leto), o atual dono da tecnologia dos replicantes que até hoje não conseguiu solucionar o problema da infertilidade de seus “produtos”. E a medida em que mergulha em um jogo de espelhos, K passa a questionar sua própria origem e seu papel dentro de todo o caso.

Da mesma forma que Ridley Scott apresentou uma versão bastante particular de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, livro de ficção-científica de Philip K. Dick no qual Blade Runner é inspirado, o diretor franco-canadense Denis Villeneuve apresenta a sua interpretação desse universo.

Se no Blade Runner original o pessimismo da trama era pontuado por um forte senso lírico, em Blade Runner 2049 somos confrontados por um ambiente ainda mais árido. Vendo o mundo pelos olhos do protagonista, se torna evidente que a integração dos replicantes é apenas fachada: o solitário K existe apenas para seu trabalho e seu relacionamento com a inteligência artificial Joi (Ana de Armas), um produto tão incompleto quanto ele.

Villeneuve é um diretor ambicioso e nesse sentido não tem medo de expandir o universo mostrado por Ridley Scott. Os planos longos e o ritmo lento prestam uma homenagem ao trabalho de Scott, mas ao mesmo tempo se ligam ao trabalho minimalista de Villeneuve, traduzido em belíssimas (e por vezes angustiantes) sequências, potencializadas pela música de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch.

Minimalismo que também se repete no roteiro, que ao contrário de muitos blockbusters atuais, não pegam o público pela mão para explicar sua trama de forma didática. Seja no preconceito velado das relações humanos-replicantes, seja em pequenas pistas espalhadas por toda a produção, Blade Runner 2049 é um filme em que as entrelinhas fazem toda a diferença.

Numa análise final, se no filme de Ridley Scott questões como a humanidade e o valor da vida são colocadas de forma poética, o Blade Runner 2049 de Villeneuve se apresenta de forma política, questionando de forma dura os limites da ética e nossa própria percepção do que é humano, se aproximando do livro de Philip K. Dick.

E respondendo à pergunta do início da resenha, em um momento em que o mundo se aprofunda na (falsa) dicotomia nós contra eles, os questionamentos desse novo Blade Runner são mais do que necessários.

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Author: André Morelli

Vida louca e próspera. morelli@popground.com.br

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