Resenha: A Casa que Jack Construiu

Recém-chegado aos cinemas brasileiros, o novo projeto de Lars Von Trier (Ninfomaníaca e Melancolia) acompanha a vida de Jack (Matt Dillon, Crash e Garotas Selvagens), um arquiteto que inesperadamente descobre o prazer de assassinar pessoas. Ao longo de doze anos, Jack se depara com a facilidade em tirar a vida de alguém, com o descaso das autoridades em solucionar os crimes e a indiferença da sociedade. O serial killer então parte rumo ao inferno acompanhado pelo poeta romano Virgílio (Bruno Ganz, A Queda), tal qual Dante Alighieri em A Divina Comédia.

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Usando a violência como ponto de partida, a trama busca explorar diversos temas através dos diálogos entre Jack e Virgílio, que percorrem todo o filme e levantam questões sobre normas e condutas sociais. Nos dois primeiros assassinatos cometidos pelo protagonista, a violência é exposta num tom quase cômico, chegando até a arrancar risos dos espectadores, mas a tensão nas cenas deixa claro o óbvio: São pessoas sendo assassinadas.

O incômodo vem das reflexões inevitáveis sobre o que é assistir um filme no qual as pessoas são mortas e torturadas das formas mais cruéis possíveis, se estamos, de certa forma, nos anestesiando perante o sofrimento alheio e qual é fronteira entre pessoas comuns e assassinos monstruosos. Talvez a tenuidade dessa linha de separação seja mais assustadora do que a brutalidade em si, já que Jack justifica seus assassinatos como forma de punição pelo que ele mesmo julga errado nessas pessoas e ainda acredita ser ajudado por Deus, já que nenhuma punição lhe alcança.

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A direção característica de Lars Von Trier segue impecável, com excelentes tomadas que capturam a tensão exata e criam uma sensação de aproximação com os personagens, mas impedindo uma imersão completa. As atuações são ótimas e Matt Dillon nos apresenta um personagem verdadeiramente intrigante, em uma atuação muito acima da média, tornando a evolução do personagem bastante crível, justificando um certo truncamento no começo do filme.

 

O grande problema com no longa é o ego do próprio diretor, que usa o filme como uma ferramenta para exibicionismos vagos, onde sua inteligência e sagacidade são apresentadas como sinônimos de originalidade e questionamentos. São três horas de exposição de seus profundos conhecimentos sobre diversos assuntos, completamente dispensáveis, se alongando demais e o tornando maçante e presunçoso. Ego de Lars Von Trier à parte, A Casa que Jack Construiu é um filme interessante, que provocando boas e urgentes reflexões.

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Natália Borges

Author: Natália Borges

Louca por filmes, séries, teorias da conspiração e coxinha de frango com catupiry.

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